A Peregrinação de Fátima, a Fonte da Renovação Portuguesa

O SEGREDO E A IGREJA

2.2  A Peregrinação de Fátima,
a Fonte da Renovação Portuguesa 
(1918 – 1926)

Enquanto  a Igreja recuperava subitamente a sua liberdade de ação como que por um milagre, outro milagre, discreto e oculto, mas ainda mais importante, começava a acontecer nos recônditos dos corações dos homens. Sob a influência da peregrinação que se organizava e desenvolvia espontaneamente, a profunda conversão de todo o povo ocorria pouco a pouco, restituindo à Igreja uma força e vitalidade há muito perdidas. Como observa o Padre Paulo Denis: «Na verdade, um novo elemento tinha subvertido tudo. A princípio, era imperceptível, depois impressionante, tão decisivo como uma mudança de corrente nas velas de um navio de três mastros». Depois de vários séculos de letargia, a Igreja em Portugal recuperou a sua autoconfiança. E esta confiança nasceu do simples facto de os católicos portugueses, respondendo ao apelo de Nossa Senhora, terem feito repetidamente a peregrinação a Fátima. Estas enormes pulsações, o fluxo regular de todo um povo de ida e volta a Fátima, desempenharam um papel essencial na restauração religiosa de Portugal. Aos poucos, o antigo complexo de inferioridade foi substituído por uma atitude de orgulho, uma bela e alegre certeza na Igreja e em si mesmos… » 1 

Antes de descrever esta maravilhosa restauração católica, antes de relatar a história de como, após 1926, Portugal emergiu do caos político e social para desfrutar – em pleno século XX – de quarenta anos de convivência pacífica na cristandade, devemos primeiro retroceder aos anos iniciais em que o evento de Fátima, graças à Virgem Santíssima, se impôs gradualmente como um acontecimento nacional. Pois se a inquestionável renovação religiosa que Portugal experimentou de 1917 à década de 1960 se deve, em primeiro lugar, a Fátima, as mentes mais esclarecidas, e sobretudo o presidente Salazar, reconheceram que sem Fátima a restauração nacional não teria sido possível. Esta afirmação, continua o Padre Denis, «é considerada óbvia por uma maioria quase unânime dos portugueses: só o novo ambiente criado por Fátima tornou possível e relativamente fácil o trabalho de recuperação política e de reconstrução nacional e social…» ²Tão verdadeira é esta afirmação que, como veremos, o desenvolvimento progressivo da peregrinação caminhou lado a lado com a conversão da nação e a sua recuperação política. Assim, trata-se de uma história tríplice que devemos narrar: a peregrinação, o renascimento religioso e, finalmente, a recuperação política e social da nação. 

I. A PEREGRINAÇÃO ESPONTÂNEA: 1917-1920
OS ANOS HEROICOS: UMA CHUVA DE GRAÇAS E MILAGRES
Assim como no Evangelho, foram principalmente os pobres, os camponeses e os habitantes rurais, que primeiro ouviram a mensagem do Céu. Eis o testemunho mais elucidativo, o de Maria Carreira, crente em Fátima desde o primeiro dia:
«Depois do dia em que o sol dançou, houve uma procissão interminável de pessoas aqui, especialmente nas tardes de domingo e no dia 13 de cada mês.»
«Havia gente daqui e gente de outras partes. Os homens vinham com seus cajados e um fardo nos ombros, e as mulheres carregavam seus filhos, e havia até idosos com pouca força. Todos se ajoelhavam perto da árvore onde Nossa Senhora havia aparecido e ninguém parecia cansado ou fatigado. Ali não se vendia nada, nem um copo d'água ou vinho – nada! Oh, que bons tempos aqueles para penitência! Muitas vezes chorávamos de emoção.» (Foi, aliás, com lágrimas escorrendo pelo rosto que Maria Carreira nos contou sobre aquelas primeiras peregrinações das quais guarda lembranças tão felizes.)

«Aqui houve muitas lágrimas e orações por Nossa Senhora, e quando havia muita gente, cantávamos nossos hinos favoritos. Que tempos maravilhosos aqueles!…  As pessoas faziam tanta penitência, e tudo com muita alegria . Acho que se eu tivesse morrido naquela época, Nossa Senhora teria me levado direto para o Céu. Agora acabou e não consigo deixar de sentir saudade daqueles dias!»
«Um dia, uma mulher de Alcanena veio em peregrinação e não conseguiu conter as lágrimas! “Ah, Fátima! Ah, Fátima!”, disse ela… “Há tanta religião aqui! De onde eu moro, só se pode dizer que não há religião nenhuma!… Chegaram a queimar a igreja, com todas as imagens dos santos!” Coitada!»

«Todos voltaram para casa felizes!  Eles vieram pedir milagres a Nossa Senhora e Ela sempre ouviu suas orações. Naqueles dias, não me lembro de ninguém dizer que Nossa Senhora tenha negado um milagre . Todos que vieram, vieram com fé ou a encontraram aqui.»
«Um dia, um homem que tinha vindo de muito longe estava encharcado pela chuva. Fui até ele e perguntei se sentia algum mal-estar. “Não”, respondeu ele, “estou perfeitamente bem e nunca passei uma noite tão feliz como esta. Percorri onze léguas e não me sinto nada cansado. Estou tão feliz neste lugar.” Além da chuva, fazia muito frio, pois era inverno, e o homem havia passado a noite inteira ao relento, porque naquela época não havia abrigo por ali.» 3 
O Rosário já era rezado quase ininterruptamente no local das aparições. Encorajados pela chuva de graças que Nossa Senhora derramava tão abundantemente sobre todos os peregrinos, irresistivelmente atraídos pela presença suave e invisível que se sentia naquele lugar abençoado, o fluxo de fiéis que se dirigiam à Cova da Iria continuava a aumentar, embora as autoridades da Igreja nada dissessem.

A HISTÓRIA DO PRIMEIRO SANTUÁRIO
A CONSTRUÇÃO DA CAPELINHA: AGOSTO DE 1918. 

Em 13 de outubro de 1917, a Santíssima Virgem havia expressado claramente o Seu desejo: «  Quero dizer-vos que aqui se construa uma capela em Minha honra. Eu sou Nossa Senhora do Rosário ». Desde então, passaram-se meses e o pároco parecia pouco preocupado em atender ao modesto pedido da Rainha do Céu.
Mas os seus devotos peregrinos, e especialmente a fervorosa Maria Carreira, ficaram aflitos com esta omissão. Já dissemos como, apesar de si mesma, desde 13 de agosto de 1917, Maria Carreira se tornou a guardiã de todas as oferendas deixadas na Cova da Iria: 4 
«Todos os dias ela juntava o dinheiro num saquinho e vendia o pão de milho, o pãozinho branco, as cestas de batatas ou ervilhas, tudo o que as mulheres tinham trazido à Virgem de Fátima, em agradecimento pelas graças recebidas ou pelo cumprimento de promessas.» 5

Logo começaram os boatos maldosos: «É claro que os Carreiras estão embolsando o dinheiro! Vejam só como as filhas de Maria Carreira agora têm vestidos bonitos! Daqui a pouco vão ter sapatos!»
«Isso me deixou com raiva, e fui procurar o pároco para lhe dizer: “Padre, o senhor teria a bondade de assumir a responsabilidade pelas esmolas? Não quero continuar assim, com todas essas perseguições!...” Então o padre me levou ao seu escritório e leu para mim uma carta do Patriarca, que dizia que o dinheiro deveria ser guardado com cuidado em uma casa de confiança, mas não na casa dos pais dos videntes, até que uma nova ordem fosse dada. Desta vez, voltei para casa com mais coragem.» 6

Mais tarde, o latoeiro – destituído do seu cargo sob o governo de Sidonio Pais, mas recuperado com a volta dos republicanos ao poder – assim como o pároco, tentariam pôr as mãos no dinheiro de Nossa Senhora. Mas os nossos camponeses eram demasiado espertos: para evitar tal cobiça, um belo dia Maria Carreira fingiu estar em grande aflição. “Roubaram-me o dinheiro da Cova da Iria!”, lamentou. A notícia espalhou-se rapidamente e, assim, ela sentiu-se mais tranquila. 
Eis o seu relato:
«Passou-se algum tempo e, quando vi que não havia mais perigo por parte das autoridades em Ourém, fui ter com o padre e pedi-lhe permissão para começar a construir a capela. Disse-lhe que pretendíamos colocar lá a imagem de Nossa Senhora e as oferendas que as pessoas traziam e que (no passado) muitas vezes se estragavam com a chuva. O padre Ferreira respondeu como se fosse indiferente e, por fim, disse que não queria ter nada a ver com aquilo. “Se a construirmos com o dinheiro que temos, estaremos a fazer alguma coisa errada?” “Não creio”, respondeu ele. Falou assim porque não queria que depois se dissesse que ele tinha ordenado a construção da capela. Tinha ordens do Cardeal Patriarca para não se envolver no assunto.»

« Quanto a mim, já tinha ouvido o suficiente e voltei para casa feliz. Contei tudo ao meu Manuel e ele foi falar com o pai da Lucy, porque ele era o dono do terreno. O António dos Santos deu a sua permissão e disse que podíamos fazer do tamanho que quiséssemos…»
«A capela demorou mais de um mês para ser construída e todos queriam dar o seu pitaco. Alguns queriam de um jeito, outros de outro. Cada um tinha a sua própria ideia, ainda mais porque nenhum padre queria se envolver. Ficou tão difícil que fui falar com o pedreiro, um homem de Santa Catarina, muito religioso e habilidoso no seu trabalho. “Não se preocupe, mulher”, disse-me ele. “Se esta é a obra de Deus, é inevitável que haja problemas no início.” Era uma capelazinha querida quando ficou pronta, mas não passava de um depósito, pois não tinha nada dentro. Nenhum padre queria vir abençoá-la e só muito mais tarde o Padre Marques dos Santos o fez. Tinha uma pequena varanda coberta na frente, minúscula – com seis pessoas, já ficava cheia. Mais tarde, foi ampliada para o tamanho que tem hoje.» 7

MAIO DE 1920: A PRIMEIRA ESTÁTUA DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA. 
Pouco mais de um mês após a conclusão da Capelinha, um comerciante de Torres Novas, Gilberto Fernandes dos Santos, foi visitar Maria Carreira. Estava muito chateado, pois havia prometido a Nossa Senhora doar todos os fundos necessários para a construção da primeira capela na Cova da Iria, mas esta já estava terminada. Maria da Capelinha, como passou a ser chamada, teve então uma ideia muito feliz: sugeriu que ele oferecesse uma estátua para ali colocar. Voltou para casa satisfeito, decidido a pedir o conselho do pároco. Uma semana depois, o assunto estava resolvido. O pároco foi ao ateliê dos Fanzeres, em Braga, que confiou a obra a um jovem escultor, José Ferreira Thedim. Como recorda Maria Carreira, Gilberto «voltou várias vezes a Fátima com o artista para falar com as crianças. O padre Formigao, que era muito amigo das famílias de Ti Marto e Maria Rosa, acompanhou-os». Nessa altura, Jacinta ainda não tinha partido para o hospital em Lisboa. No entanto, ainda demoraria bastante até que os trabalhos começassem… » 8
 José Ferreira Thedim
Nos primeiros dias de maio de 1920, a obra foi finalmente concluída e enviada de trem ao generoso doador de Torres Novas. Era uma bela estátua de madeira pintada que rapidamente se tornou muito querida pela devoção popular. Levemente retocada pelo artista em 1951 ou 1952, ainda é venerada na Capelinha, permanecendo assim nossa lembrança mais comovente dos primeiros dias da peregrinação .
Em 1920, coincidiu o dia 13 de maio com a festa da Ascensão. Decidiu-se aproveitar a afluência de peregrinos para instalar a nova estátua na Capelinha. Contudo, não contavam com a tirania das autoridades da República, que não quiseram nem ouvir falar nisso. Em Torres Novas, a estátua já atraía os curiosos e as pessoas afluíam à casa do doador onde estava exposta. O que causaria, então, na Cova da Iria? O administrador de Torres Novas contactou Gilberto e proibiu-o de a transportar para Fátima. Para maior segurança, um grupo de soldados passou a guardar a casa… sem dúvida sem qualquer entusiasmo, pois eis o que aconteceu:
«Em 12 de maio, o pai do doador atrelou uma parelha de bois e começou a carregar as ferramentas e diversos materiais em sua carroça, como se fosse trabalhar no campo. Ele colocou um baú ali. Mas os soldados, que não viram nada de suspeito naquela tranquila parelha de bois, deixaram-na passar. Quando a carroça estava fora da aldeia, alguns amigos que esperavam colocaram o baú em um automóvel e o levaram até a igreja paroquial de Fátima.» 10
Com a autorização do padre Moreira, que estava temporariamente encarregado da paróquia de Fátima, a estátua foi abençoada pelo arcipreste de Torres Novas, que na época se encontrava com sua família no povoado de Montelo, perto de Fátima. 11

O CONFRONTO DE 13 DE MAIO DE 1920

Circulava um boato falso (espalhado por quem?) de que, no dia 13 de maio, o corpo de Jacinta seria transportado de seu túmulo em Vila Nova de Ourém para Fátima. As autoridades também tinham conhecimento da instalação da estátua na Capelinha, prevista para o mesmo dia. Esperava-se ainda uma enorme multidão de peregrinos.
Esta nova e espetacular manifestação em honra de Nossa Senhora enfureceu os sectários. Decidiram impedi-la a todo custo. A iniciativa partiu de baixo ou de cima? O fato é que o latoeiro poderia apresentar ordens nesse sentido vindas do gabinete do ministro do Interior! Nem tudo é claro neste caso em que, para mobilizar as forças necessárias, sem dúvida não hesitaram em espalhar algumas inverdades. Em todo o caso, a proibição da reunião na Cova da Iria assumiu proporções de assunto de Estado! 12
No dia 6 de maio, após convocar todos os funcionários de seu território, o Latoeiro expôs o enorme perigo que Fátima representava para a República! Seu secretário na época, o Sr. Júlio Lopes, que não compartilhava de seu sectarismo, descreveu-o posteriormente da seguinte forma:
«Quando começou a espalhar a notícia de que se estava a organizar uma grande peregrinação a Fátima, Artur de Oliveira Santos declarou: “Quero pôr fim a esta farsa!” “Nada disso farás!”, respondi-lhe. “Mobilizarei toda a artilharia! Ninguém passará! Contra a força não há resistência!” Eu bem sabia, acrescentou Júlio Lopes, que se tratava de uma ideia insensata!» 13
No ano seguinte, em sua primeira obra sobre as aparições de Fátima, o Padre Formigão escreveu um relato fascinante desse dia memorável. Dificilmente poderíamos fazer melhor do que citar extensamente esse documento insubstituível. Ele nos permite compreender perfeitamente a atmosfera da época. Junto com uma profunda e entusiástica devoção a Nossa Senhora de Fátima, havia a euforia do orgulho redescoberto e a evidente satisfação em ousar desafiar as ordens insensatas dos tiranos maçons. 
«Cheguei a Vila Nova de Ourém de manhã cedo, no dia 13 de maio passado. Estava chovendo torrencialmente e havia uma tempestade em curso. Quando saí de Lisboa, corriam rumores alarmantes sobre Fátima, e diziam que era inútil tentar ir para lá porque havia ordens oficiais para impedir o trânsito por Vila Nova de Ourém. Por esse motivo, muitas pessoas que tinham combinado de vir comigo acabaram não saindo de Lisboa, mas eu arrisquei e vim ver com meus próprios olhos o quanto havia de verdade nos boatos.»
«Ao chegar, vi duas senhoras, uma jovem e atraente, e a outra mais velha, mas de aparência distinta, ambas que eu conhecia superficialmente. Pobres! Naquela chuva torrencial, lembrei-me do versículo do Gênesis:  Et apertae sunt cataractarum aquarum et fontes abyssi magni . Mas elas não se queixavam e estavam cheias de fé e entusiasmo. Seu único medo parecia ser o de serem impedidas de chegar ao local das Aparições.»
«Com muita dificuldade, chegamos a uma pequena hospedaria em frente à igreja, e lá descansamos até o amanhecer, pois era praticamente impossível conseguir quartos.»
«Bem cedinho pela manhã, ouvimos uma tropa de cavalos passar e corremos para a janela, onde vimos um esquadrão de cavalaria da Guarda Republicana galopando em direção a Fátima. Os rumores, então, não eram infundados. Perguntamos a uma criada o que se passava no ar, mas recebemos a mesma resposta. Nada além de rumores... rumores. Que havia infantaria, cavalaria, metralhadoras e sei lá mais o quê. Parecia haver uma ofensiva geral em curso, mas contra o quê, em nome de Deus! Ninguém sabia, disse a mulher. Uma coisa era certa: de Ourém ninguém podia ir a Fátima. Havia transporte disponível e muito procurado, a 40 dólares a carroça, mas todos acabaram sendo vendidos, para grande desgosto dos proprietários, todos bons republicanos, mas incapazes de entender por que cidadãos pacíficos deveriam ser proibidos de fazer um passeio que lhes agradava tanto.»
«Em Tomar, ao que parecia, a mesma proibição estava em vigor, assim como em vários outros distritos cujas autoridades haviam proibido a saída de veículos.»
«Enquanto conversávamos, um jovem, dono de uma gráfica em Lisboa, e pouco depois o Dr. da Fonseca, um advogado que defendia um cliente no tribunal local, aproximaram-se de nós. Perguntamos-lhes se sabiam de alguma coisa. Aparentemente, não mais do que nós. As pessoas estavam sendo autorizadas a ir até Fátima, mas não mais longe. Nessa altura, a chuva parou e eu saí para a rua, onde observei a passagem de carroças e carros, caminhões, pedestres e cavaleiros – um passeio comum!»
«Eu me perguntava qual era o propósito de todas aquelas proibições. Eu esperava não ver ninguém, e no entanto, lá estava aquele fluxo constante de homens, mulheres e crianças.»
«Havia enormes charretes puxadas por mulas, cheias de gente gargalhando alto, aparentemente rindo do prefeito, que eu conseguia ver no meio da rua, com uma expressão desconfortável usando um chapéu de palha e um sorriso forçado nos lábios. Havia carroças decoradas com flores… carros buzinando, carruagens imponentes, charretes modestas… homens e mulheres a pé, encharcados e cobertos de lama, pingando água, mas felizes, sorrindo. Tudo isso se desenrolava diante de mim como um longo filme. De onde vinham todas aquelas pessoas? De todos os lugares, mas principalmente de Torres Novas, me disseram. E o que o prefeito estava fazendo perambulando por aí com seu chapéu de palha? Que novidade estava prestes a acontecer? Era tudo muito divertido!»
«Eu queria ir para Fátima o mais rápido possível, mas tinha que pensar na missa. Perguntei a que horas era celebrada na igreja e me disseram que era às onze. Depois da missa, almocei às pressas e parti pela estrada íngreme que sobe de Ourém até Fátima.»
«Na direção oposta, vinha um carro em alta velocidade, no qual vislumbrei fuzis, dispostos de forma ameaçadora. Era o prefeito e sua escolta! “Ele não presta”, observou um rapaz pedalando uma bicicleta morro acima. Depois de uma hora e meia de subida, nos aproximamos de Fátima e a chuva recomeçou. Finalmente, entramos na pequena praça em frente à igreja. Por toda parte, víamos carroças, charretes e carros estacionados. Uma grande multidão, de milhares de pessoas, bloqueava a praça e a igreja. No meio da rua, uma força de infantaria e cavalaria da Guarda Republicana impedia a passagem das pessoas, impedindo-as de completar os três quilômetros restantes que separam Fátima da Cova. Perguntei a alguns transeuntes se alguém havia passado. Até o meio-dia, disseram-me, todos haviam passado, mas então o prefeito chegou e proibiu a passagem. Perguntei ao comandante se alguém poderia passar, mas ele me informou educadamente que havia permitido a passagem até que o prefeito desse ordens em contrário. Ele lamentava muito, mas tinha que obedecer às ordens.» Voltei e me misturei à enorme multidão que se reunia dentro da igreja e no alpendre, comentando tristemente o ocorrido e sem conseguir entender que ameaça à ordem pública poderia existir na Cova da Iria e não em Fátima, já que as pessoas eram as mesmas. Era absolutamente ridículo, todos concordavam.
«Muitas pessoas tentaram atravessar os campos sem serem vistas, escalando muros e outros obstáculos, e conseguiram chegar ao local das Aparições, considerando-se afortunadas por poderem ajoelhar-se ali e rezar o Rosário. Talvez tenha sido isso que colocou o Governo em perigo!»
«Dentro da igreja de Fátima, o Padre Cruz pregava sermões e conduzia o Rosário, enquanto muitas pessoas se confessavam. Uma mulher cega, que viera de Aveiro com muito sacrifício, apoiava-se no braço de uma amiga sob a chuva torrencial que recomeçara. Ela não se queixava, mas, pelo contrário, confiava em Deus com grande fé e caminhava em direção à igreja. Um homem barbudo, que me disse ser médico, explicava as razões providenciais da proibição a uma multidão que se aglomerava ao seu redor. Segundo ele, as pessoas haviam começado a transformar o lugar numa espécie de feira, com música, etc., e obviamente Nossa Senhora não queria isso. Ela aparecera num lugar deserto justamente porque queria ser amada e venerada em espírito e em verdade, sem os acompanhamentos que lembram as  festas menos edificantes , etc., etc. Oração e penitência, era só isso que Ela queria; portanto, com essa proibição, as autoridades, inconscientemente, satisfaziam os desejos de Nossa Senhora!»
«A chuva recomeçou a cair torrencialmente e todos tentaram encontrar abrigo debaixo de carroças ou no alpendre da igreja, que já estava completamente lotada.»
«Nesse momento, vi a Guarda Republicana desferindo golpes indiscriminadamente contra alguns camponeses pacíficos que, tristemente, observavam a cena debaixo de seus guarda-chuvas. Surpreendidos pelo ataque totalmente inesperado, fugiram sem saber por que haviam sido atacados. Alguém se aproximou dos guardas para perguntar o motivo. Eles reclamaram que um homem tentara forçar a passagem e que, quando o impediram, ele os ameaçou. Na confusão que se seguiu, os inocentes sofreram junto com os culpados, como é comum no mundo.»
«Após essa explicação, e com a ordem restabelecida, comecei a conversar com alguns camponeses e, prudentemente, aconselhei-os a não tentarem passar, acrescentando que haveria grande mérito em obedecer às ordens, por mais injustas que fossem, desde que não houvesse nada contra a consciência em fazê-lo. Então, um dos guardas me disse com a maior sinceridade:»
“Se o senhor soubesse, meu Deus, o quanto detesto esta tarefa. Obedeço às ordens porque sou obrigado, mas acredite, odeio isso de coração. Sou religioso e não consigo entender por que essas pessoas pobres devem ser impedidas de ir à Cova rezar. É o suficiente para perturbar qualquer homem. Tenho uma irmã cuja vida foi salva por Nossa Senhora de Fátima!”
«Ao dizer isso, uma gota de água escorreu por sua bochecha, certamente não da chuva que caía torrencialmente e pingava de seu capuz impermeável.»
«Depois disso, fui à casa paroquial, cuja varanda, projetada no antigo estilo português, estava sendo assaltada por aqueles que tentavam se abrigar da chuva. Ali, vi uma das senhoras que me acompanharam pela manhã, e ela me confidenciou em um sussurro que ia encontrar o caminho para a Cova por uma trilha secreta através dos campos. Vi-a partir na chuva torrencial e na lama, encantada com a ideia de levar a melhor sobre os Herodes modernos do Governo.»
«Finalmente, nosso cocheiro nos avisou que a estrada estava ruim e que deveríamos partir logo. Fizemos nossas últimas orações, nos despedimos e voltamos para Ourém e de lá para casa.»
«Na estação, enquanto esperávamos o trem, encontramos muitas pessoas de diferentes partes do país que, assim como nós, estavam voltando para casa. Vimos a senhora cega de Aveiro com uma companheira do Porto, ambas, apesar de estarem encharcadas e com a saúde debilitada, mas de ótimo humor. Vi um amigo joalheiro de Lisboa e muitas outras pessoas da capital…» 14
Eis o relato que a Irmã Lúcia nos deixou sobre o mesmo dia. Diante de acontecimentos tão incomuns, ela certamente não demonstrou a frieza que o Padre Formigão poderia ter. Tal mobilização de forças armadas e tantas ameaças contra ela normalmente abalariam profundamente uma menina de treze anos. Sua calma nessa ocasião é digna de nota. Demonstra uma coragem e um equilíbrio incomuns.
«Algum tempo depois, em 13 de maio, não me lembro se foi em 1918 ou 1919, espalhou-se a notícia ao amanhecer de que cavaleiros estavam em Fátima para impedir que as pessoas fossem à Cova da Iria. Todos ficaram alarmados e vieram me dar a notícia, assegurando-me que, sem dúvida alguma, aquele seria o último dia da minha vida. Sem levar a notícia muito a sério, parti para a igreja. Quando cheguei a Fátima, passei entre os cavalos que estavam por todo o terreno da igreja e entrei. Ouvi uma missa celebrada por um padre que eu não conhecia, recebi a Sagrada Comunhão, fiz minha ação de graças e voltei para casa sem que ninguém me dissesse uma única palavra. Não sei se foi porque não me viram ou porque não me consideraram digno de atenção.»
«Chegavam notícias de que as tropas tentavam em vão manter as pessoas longe da Cova da Iria. Apesar disso, fui lá também para rezar o Rosário. No caminho, juntei-me a um grupo de mulheres que vinha de longe. Quando nos aproximávamos do local, dois cavaleiros chicotearam os cavalos e avançaram a toda velocidade em direção ao grupo. Pararam ao nosso lado e perguntaram para onde íamos. As mulheres responderam com ousadia que “não era da conta deles”. Chicotearam os cavalos novamente, como se quisessem investir e nos atropelar. As mulheres correram em todas as direções e, um instante depois, me vi sozinha com os dois cavaleiros. Perguntaram-me o meu nome e eu o disse sem hesitar. Em seguida, perguntaram-me se eu era a vidente e eu disse que sim. Ordenaram-me que fosse para o meio da estrada, entre os dois cavalos, e seguisse na direção de Fátima…»
«Quando chegamos a um terreno nos arredores de Aljustrel, onde havia uma pequena nascente e algumas valas cavadas para o plantio de vinhas, eles pararam e disseram um ao outro, provavelmente para me assustar: “Aqui estão algumas valas abertas. Vamos cortar a cabeça dela com uma de nossas espadas e deixá-la aqui, morta e enterrada. Assim, acabaremos com este assunto de uma vez por todas.” Ao ouvir essas palavras, pensei que meu fim havia chegado, mas fiquei tão tranquilo como se aquilo não me dissesse respeito. Depois de um ou dois minutos, durante os quais pareceram ponderar, o outro respondeu: “Não, não temos autoridade para fazer tal coisa.”»
«Ordenaram-me que continuasse andando. Então, atravessei nossa pequena vila até chegar à casa dos meus pais. Todos os vizinhos estavam nas janelas e portas de suas casas para ver o que estava acontecendo. Alguns riam e zombavam de mim, outros lamentavam minha triste situação. Quando chegamos à minha casa, ordenaram que eu chamasse meus pais, mas eles não estavam lá. Um deles desmontou e foi ver se meus pais estavam escondidos dentro de casa. Ele revistou a casa, mas não encontrou ninguém; então, ordenou que eu ficasse dentro de casa pelo resto do dia. Depois, montou em seu cavalo e ambos partiram.»
«No final da tarde, espalhou-se a notícia de que as tropas haviam se retirado, derrotadas pelo povo. Ao pôr do sol, eu rezava o meu Rosário na Cova da Iria, acompanhada por centenas de pessoas. Enquanto eu estava presa, segundo o que soubemos depois, algumas pessoas foram contar à minha mãe o que estava acontecendo, e ela respondeu: “Se for verdade que ela viu Nossa Senhora, Nossa Senhora a defenderá; e se ela estiver mentindo, terá o direito de ser punida”. E ela permaneceu em paz como antes.» 15  (Em uma carta de 14 de abril de 1927, Lúcia lembraria sua mãe disso.)
A «Federação Portuguesa do Livre Pensamento» pôde felicitar o seu zeloso representante junto da Administração em Vila Nova de Ourém. Em vão o Latoeiro lhe assegurou que, de facto, «no dia 13 de maio as forças da reação sofreram… ​​um duro golpe que reduziu a nada a manifestação prevista». A opinião predominante era a de que a peregrinação, com os seus milhares de fiéis vindos de todas as partes, apesar de todos os obstáculos colocados pelo governo, tinha sido uma nova vitória da fé popular contra a estúpida tirania dos funcionários governamentais. Estes últimos foram, mais uma vez, alvo de ridículo.
Embora os sectários fossem impotentes diante da multidão de peregrinos, eles poderiam, ainda assim, vingar-se destruindo a estátua. Como a situação ainda parecia ameaçadora, ela foi prudentemente deixada na sacristia da paróquia.
«Tínhamos muito medo de alguma profanação (diz Maria da Capela), mas ao mesmo tempo ansiávamos por poder venerar uma imagem de Nossa Senhora no próprio lugar onde Ela havia aparecido. Um dia, Gilberto veio e disse que achava que seria uma boa ideia colocar um véu sobre o nicho para que as pessoas pensassem que a imagem já estava lá. Assim, poderíamos ver se algo de ruim aconteceria. Então, coloquei uma toalha sobre o nicho e todos pensaram que Nossa Senhora estava atrás dela. Não aconteceu absolutamente nada. Então, Gilberto trouxe a imagem e a colocou no nicho (em 13 de junho de 1920).»
«Passaram-se meses e começaram a surgir novos rumores de que a estátua seria roubada e a capela incendiada. Então pensamos que seria melhor levar a estátua para minha casa e trazê-la para a capela todas as manhãs. Devia ser por volta do final de outubro quando meu marido trouxe Nossa Senhora para nossa casa em Moita. Montamos um pequeno altar na sala de estar e colocamos a estátua sobre ele com duas lamparinas de óleo acesas.» 18
Como veremos, essa precaução prudente não foi em vão.
II. 1920: FINALMENTE UM BISPO!

O RECONHECIMENTO NÃO OFICIAL DA PEREGRINAÇÃO
E SEU MARAVILHOSO DESENVOLVIMENTO (1920-1926 )

Enquanto o governo se esforçava arduamente, mas em vão, para se opor à peregrinação que agora estava em pleno andamento, ocorreu um evento da maior importância. Desse evento dependeria o futuro de Fátima. Em 15 de maio de 1920, o Papa Bento XV finalmente concedeu um pároco à diocese de Leiria, juridicamente restaurada mais de dois anos antes! Dom da Silva foi consagrado em 25 de julho na Catedral do Porto e tomou posse solenemente de sua Sé de Leiria em 5 de agosto de 1920.
Dom da Silva era um homem de grande cultura. Distinguiu-se pela sua profunda piedade e pelo seu grande amor pela Virgem Santíssima. Tinha uma devoção especial por Nossa Senhora de Lourdes, tendo já lá percorrido doze vezes em peregrinação. A 15 de agosto de 1920, dez dias após a sua entronização, consagrou solenemente a sua diocese à Virgem Santíssima.
O que ele pensava dos acontecimentos de Fátima na época? Mais tarde, ele próprio confidenciou a resposta ao Cônego Barthas:
«A princípio, não queria me incomodar com isso, a ponto de – vocês não vão acreditar – eu nem saber onde ficava Fátima. Quando o Núncio Apostólico me chamou para propor a reconstrução da diocese de Leiria, hesitei muito. Vejam vocês mesmos o estado da tal diocese; nesta vila (Leiria) só tem um padre! Para me encorajar, Sua Graça o Bispo de Portalegre me disse: “Você tem Fátima, uma nova Lourdes!” “Ah, isso significa mais um problema”, respondi. No geral, eu estava incrédulo. Contudo, uma vez aceitas as minhas responsabilidades, resolvi esperar pela Providência pelos sinais que guiariam a minha conduta.» 20
Em primeiro lugar, ele desejava ser informado. Em 15 de setembro de 1920, recebeu o padre Formigão, que lhe explicou a urgência de se chegar a uma decisão.  O padre Faustino, decano de Olival, interveio no mesmo sentido. Mas outras tarefas absorveram o novo bispo: em 30 de outubro, reabriu um seminário em Leiria, com trinta alunos.

A COMPRA DO TERRENO E AS PRIMEIRAS AUTORIZAÇÕES PARA O CULTO PÚBLICO

Finalmente, após um ano de espera, durante o qual pôde ouvir as mais variadas opiniões, o bispo formou a sua própria opinião, que foi decisivamente a favor das aparições. Em junho de 1921, assegurou que Lúcia fosse transferida de Aljustrel para garantir a sua formação no colégio de Vilar, no Porto. 22
Ao mesmo tempo, decidiu tomar sob sua vigilância o culto espontâneo que se desenvolvia na Cova da Iria sem qualquer controle do clero. Em 12 de setembro de 1921, foi ele próprio a Fátima pela primeira vez. Lá, rezou o Rosário na Cova da Iria e encontrou alguns camponeses locais, alguns dos quais já haviam doado terras que possuíam na Cova da Iria e arredores. A fiel Maria Carreira pôde lhe entregar a considerável quantia em dinheiro que guardava desde agosto de 1917. Dois dias depois, em 14 de setembro, foram lavrados os atos de doação ou venda perante um notário.
No dia 13 de outubro, o povo celebrou o quarto aniversário da última aparição. Com a permissão de Sua Graça, a capela foi finalmente abençoada pelo Cônego Marques dos Santos, e a Missa foi celebrada pela primeira vez. A partir de então, o bispo permitiu a celebração de uma «Missa baixa com sermão nos dias de grande afluência de peregrinos». 24

Um poço milagroso?

Um mês depois, uma solução inesperada foi encontrada para o difícil problema da água. Em 12 de setembro, o bom bispo percebeu no local a necessidade urgente de remediar a falta de água:
«Perguntei aos aldeões (relatou mais tarde o Bispo da Silva) como os peregrinos conseguiam obter água para beber e lavar-se. Disseram-me que era motivo de disputas entre os peregrinos e os aldeões, porque estes se recusavam a deixar que os seus poços fossem esvaziados. Disse-lhes que não queria que os membros da minha diocese discutissem entre si, especialmente no que diz respeito à Santíssima Virgem. E pedi ao sempre dedicado Senhor Carreira que cavasse um poço na parte mais baixa do terreno onde se forma a Cova.» 25
A ordem de Sua Graça só pôde ser cumprida em 9 de novembro de 1921, quando as escavações começaram. 26  Maria Carreira deixou um relato encantador:
«No início, os homens pensaram em cavar o poço ao pé da figueira, a oitenta metros da Capelinha, a pequena capela. Mas, por fim, a ideia de José Alves foi adotada. Estavam presentes o padre Marqués dos Santos, pároco de Santa Catarina, e o arcipreste de Olival. “Na minha opinião”, disse José Alves, “nunca vamos cavar um poço aqui!” “Nesse caso, onde?”, perguntou o arcipreste. “Ali!...” e José Alves mostrou-lhes o lugar onde a  Cova  ficaria no seu ponto mais profundo. “Mesmo que não chova durante um mês ou mais”, disse ele, “aqui há sempre alguma humidade e alguns caniços.” Mais tarde, passou a dizer com orgulho: “Sim, este é o lugar onde cavaram o poço, por minha vontade e bom grado!”»
«Mas, depois de apenas meio dia de árduo trabalho, foram impedidos por uma pedra. “E agora, o que vamos fazer?”, perguntaram os sacerdotes. “Vamos explodir a pedra!… Vou buscar imediatamente as ferramentas necessárias.” Antes mesmo que conseguissem as ferramentas, por si só, surgiu muita água. Mas o poço permaneceu inacabado e descoberto. Permaneceu assim até o ano seguinte.»
«“A água surgiu milagrosamente?”, perguntou o padre de Marchi. Essa era, em todo caso, a impressão dos habitantes locais e também dos peregrinos, que vinham em número cada vez maior para tirar água do poço providencial. Certamente, naquela terra seca, ninguém poderia esperar encontrar água com tanta facilidade.»
«“Eles vinham aqui”, conta o bom José Alves, “com garrafas e urnas que eram enchidas e trazidas para casa para os doentes beberem ou lavarem as feridas. Todos tinham muita fé naquela água, e Nossa Senhora, como recompensa, fazia a dor desaparecer e as feridas sararem.  Nunca Nossa Senhora fez tantos milagres como naquela época …”
“Muitos vinham aqui – era lamentável – com pus escorrendo pelas pernas. Lavavam-se e deixavam o curativo ali, porque Nossa Senhora os curava. Outros ajoelhavam-se para beber essa água barrenta e sentiam-se curados de suas dores internas.”
«Poder-se-ia dizer (comenta o Padre de Marchi) que a Santíssima Virgem, em Sua ternura materna, estava brincando com os homens e seus preceitos de higiene, realizando prodígios miraculosos com meios que, humanamente falando, só poderiam ter causado infecções e complicações.» 27

1922: UM NOVO ANO DE GRAÇAS

A partir desse momento, os eventos felizes que marcaram o crescimento da devoção a Nossa Senhora de Fátima sucederam-se quase ininterruptamente. Os esforços finais dos sectários para criar obstáculos a esse grande e irresistível movimento também contribuíram para esses acontecimentos…

6 DE MARÇO DE 1922: A CAPELINHA DINAMITADA. 
«Na noite de 5 para 6 de março de 1922, uma forte explosão despertou os habitantes dos povoados de Moita e Lomba d'Egua. Guiados pelo brilho de um pequeno incêndio, chegaram à Capelinha, que estava em chamas. Apenas as paredes, bastante abaladas, permaneceram de pé, e parte da estrutura foi consumida pelo fogo.»
« Providencialmente, a estátua de Nossa Senhora havia sido removida na noite anterior. Os bandidos (Maria Carreira diz simplesmente, “os maçons”) haviam perfurado a parede em quatro lugares e colocado ali quatro dispositivos explosivos. Um quinto, colocado no tronco do carvalho-verde, não explodiu. » 28
A indignação foi generalizada. Até mesmo o jornal liberal  O Século  juntou-se ao coro de protestos. Convocado ao parlamento, o ministro em questão prometeu abrir uma investigação, que, naturalmente, nunca aconteceu. Um boato generalizado rapidamente apontou os culpados: os amigos do latoeiro. Nos meses seguintes, dois deles viram seus filhos cometerem suicídio. Seria um castigo divino? Um dos dois culpados se converteu, enquanto o outro deixou o país. 29
O novo pároco de Fátima, Padre Agostinho Marques Ferreira, organizou uma procissão de protesto para o dia 13 de março. A procissão partiu da igreja de Fátima e seguiu até o local das aparições. Diante da Capelinha, foi celebrada missa na presença de dez mil fiéis, que atenderam ao apelo do pároco. Isso demonstra como o povo da região já demonstrava unanimidade em seu fervor e prontidão para manifestá-lo.
O atentado teve outra consequência feliz. Sem dúvida, levou o bispo da Silva, sempre excessivamente prudente e lento em tomar decisões, a resolver envolver-se mais ativamente nos assuntos de Fátima…
3 DE MAIO DE 1922: ABERTURA DO PROCESSO CANÔNICO. 
Cedendo finalmente aos numerosos apelos do Cônego Formigão, decidiu-se abrir o inquérito canônico que poderia culminar no reconhecimento oficial das aparições. Em um mês, graças ao trabalho dedicado do primeiro historiador de Fátima, tudo foi decidido, a comissão foi nomeada e, em 3 de maio, uma portaria do bispo anunciou o evento.
13 DE MAIO DE 1922: A GRANDE CERIMÔNIA DE REPARAÇÃO
No dia 13 de maio, quinto aniversário da primeira aparição, uma multidão de sessenta mil peregrinos – tantos quanto os que compareceram ao grande milagre solar – cercou a Cova da Iria. Um altar foi erguido diante da Capelinha, cujo teto havia sido explodido. O pároco de Fátima celebrou a missa e o padre José Pedro Ferreira proferiu um sermão sobre a devoção à Santíssima Virgem. No museu da vice-postulação para a causa de beatificação dos videntes, pode-se ver uma comovente fotografia da cena.
O Sr. de Sousa Leitão, que no início do ano anterior sucedera ao Latoeiro como Administrador de Vila Nova, recebeu em cima da hora um telegrama do governo ordenando-lhe que interviesse: «Reunião reacionária em Fátima é absolutamente proibida». Apesar de ser maçom, o nosso homem não era desprovido de bom senso e disse ao prefeito para desobedecer a esta ordem, uma vez que era impossível de executar. Lisboa revogou pouco depois a proibição da manifestação. «Desgostoso com tudo isto, o Sr. de Sousa Leitão demitiu-se do cargo. Quatro dias depois do dia treze, transferiu as suas competências ao Sr. António de Sá Pavilhão», a quem voltaremos a mencionar mais tarde. Entretanto, a seita tinha acabado de sofrer mais um duro revés. As coisas tinham mudado decisivamente desde 1917; agora tudo conspirava contra ela!
“EU RECEBI NOSSA SENHORA EM CASA!” Após o bombardeio de 6 de março, o fluxo de peregrinos à Cova da Iria foi ainda maior. Eles não eram atraídos nem pela vidente, que já havia partido de Fátima no ano anterior, nem pela beleza do lugar, nem pelo clero (que, embora agora permitisse a peregrinação, ainda não a incentivava), nem pela capela, que infelizmente estava muito danificada. Somente a doce presença da Virgem Imaculada – uma presença invisível, porém palpável e tão eficaz – conseguia atrair irresistivelmente um fluxo regular de peregrinos a cada aniversário das aparições. Quando foi felicitado posteriormente pelo magnífico sucesso de Fátima, o Bispo da Silva pôde dizer com toda a sinceridade: «   Eu não fiz nada. Foram o povo e a Virgem Santíssima que fizeram tudo antes da minha chegada .»
«Queríamos restaurar a capela imediatamente» (relata Maria Carreira), «mas o Bispo disse que não podíamos fazê-lo até que ele desse permissão. Isso nos deixou muito tristes. Ficamos muito deprimidos ao ver a capela naquele estado e não gostávamos de ficar perto dela. Costumávamos ir lá, rezar e ir embora. As pessoas vinham à nossa casa rezar junto à estátua. Entre elas estavam o Padre Marques e o Padre Formigão. As pessoas ajoelhavam-se à porta e rezavam.  Havia sempre gente lá e Nossa Senhora respondia-lhes  da mesma maneira, para que tivessem mais fé. Eu era muito feliz por ter Nossa Senhora na minha casa. Mas agora, Padre, fico triste ao ver as pessoas a piorarem cada vez mais.»
«No dia 13 de cada mês, muita gente se reunia para levar a imagem em procissão até a Cova da Iria. Não tínhamos esquife, mas todos queriam a sua vez de carregá-la. Havia muitas promessas de fazê-lo, e assim cada um a carregava um pouco. Cantávamos e rezávamos enquanto caminhávamos, e quando chegávamos lá, passávamos a tarde em nossas devoções e fazíamos uma procissão; depois voltávamos para minha casa. Oh, que tempos felizes aqueles! Quando Nossa Senhora passava, as pessoas se ajoelhavam na rua como fazem diante do Santíssimo Sacramento. Era lindo naqueles dias ver tantas pessoas pensando apenas em coisas sagradas. Havia tanta oração, na verdade,  passávamos o dia inteiro, desde cedo, na companhia de Nossa Senhora . Muitos vinham para cumprir suas promessas e acender velas; outros vinham para pedir certas graças, mas todos iam embora felizes.» 30
A “VOZ DE FÁTIMA”. Em 13 de outubro de 1922, foram publicados três mil exemplares de uma revista especialmente dedicada à peregrinação. Com a autorização do bispo e sob a direção do Cônego Formigão, a “Voz de Fátima” logo passou a informar todo o Portugal sobre a mensagem de Fátima e os maravilhosos milagres de graças, curas e inúmeras conversões ali realizados por Nossa Senhora do Rosário. Em 1925, a circulação desta revista já havia crescido para 50.000 exemplares, em 1929 para 100.000, em 1934 para 200.000 e em 1937 para 300.000. Foi um enorme sucesso. 31
No mesmo dia, 13 de outubro de 1922, havia quarenta mil peregrinos na Cova da Iria e quarenta missas foram celebradas ali. Mais uma vez, foi o santo Padre Cruz, tão popular, quem pregou. Eis o relato entusiasmado do Padre Formigão:
«Quando a missa terminou, o Reverendo Doutor Francisco Cruz de Lisboa subiu ao púlpito. Pronunciou algumas palavras simples e sem grandes preparativos, mas que penetraram no fundo dos nossos corações. É um santo que fala. A sua figura esbelta e ascética, o seu semblante afável e sereno, a sua doce e angelical unção, a sua reputação de homem de surpreendente virtude, tudo isto por si só tem o valor de um longo e substancial sermão.»
«Por cerca de meia hora, ele discorre com uma eloquência apostólica profunda sobre a devoção a Nossa Senhora do Rosário e exalta a necessidade da oração e da penitência. Após a instrução, muitos peregrinos se retiram. Mas a maioria acha bastante difícil se desvencilhar desse pequeno recanto do Céu, que conquista almas e cativa corações.»
«Estimo que o número de peregrinos seja de quarenta mil pessoas. Milhares de imagens de Nossa Senhora do Rosário e exemplares da “Voz de Fátima”, recebidos com muita alegria, são distribuídos gratuitamente. Aos poucos, as carruagens, carros e caminhões vão partindo, enquanto as primeiras sombras da noite descem sobre a montanha.»
«Alguns raros grupos de habitantes da região ainda permanecem em oração perto do monumento comemorativo. Enquanto isso, mais longe, nas estradas e trilhas da montanha, os peregrinos retornam às suas casas após uma longa e árdua expedição, murmurando seus louvores e entoando seus cânticos religiosos, com a alma transbordando de uma alegria que não é deste mundo, alimentando a doce esperança de visitar em breve este incomparável centro de devoção, onde deixaram um pouco de seus corações.» 32
Finalmente, em 13 de dezembro, com a permissão de Sua Graça, os operários começaram os reparos na Capelinha danificada, acrescentando um telhado para a celebração de missas.
Quantas novidades positivas para a peregrinação em apenas um ano!

OS ANOS DE 1923-1925

Em 1923, o novo administrador, Antonio de Sa Pavilon, procurou um novo pretexto para intervir no poço da Cova da Iria: « Vai causar infecção! Tem de ser fechado! É uma vergonha!», declarou Francisco Alves, Subsecretário de Saúde Pública, que foi consultado de imediato. Uma série de ordens chegou, mas o pároco de Fátima não cedeu. O zelo da Administração era, naturalmente, bastante questionável: por toda a região existiam poços, cisternas ou mesmo lagoas semelhantes, onde os camponeses tiravam água, sem que Sua Excelência se incomodasse minimamente. Além disso, a água da Cova, longe de prejudicar a saúde pública, estava, na verdade, a curar os doentes! O que mais poderiam querer?
No entanto, o padre de Marchi relata:
«O bispo de Leiria deu a ordem para terminar o poço, aprofundá-lo e cobri-lo.»
«Enquanto os trabalhos decorriam, o Administrador apareceu, acompanhado pelo Subsecretário de Saúde Pública e pelo pároco, porque se tinha espalhado o boato de que o poço estava envenenado. Foi retirado um balde de água muito limpa, que o Sr. Alves declarou potável.»
«Depois da Capelinha, o poço foi a primeira obra concluída no local das aparições.» 33
Em 1923 e 1924, as autoridades tentaram mais uma vez proibir o acesso à Cova da Iria, mas em vão. Os episódios cômicos dessas últimas tentativas podem ser lidos em Barthas. Entre outros, destaca-se este fato bastante significativo: o Administrador «deixou os soldados junto à quinta chamada  da Carreira … eles juntaram-se aos peregrinos, comprando medalhas e rosários, e tocando-os na imagem venerada, tal como os outros “delinquentes”». 34
Em poucos anos, Nossa Senhora de Fátima tornou totalmente ineficaz a fúria anticlerical das autoridades maçônicas, que ali vigoravam há um século e meio, quase sem interrupção. Em suma, pouco a pouco o povo se converteu e os decretos governamentais se mostraram inúteis.
UMA MISTERIOSA CHUVA DE FLORES
Em 13 de maio de 1924, registrou-se uma multidão de peregrinos maior do que nunca: duzentos mil fiéis – três vezes mais do que no milagre solar – apressaram-se aos pés de Nossa Senhora. E embora o Bispo da Silva ainda não tivesse oficiado, estava presente entre suas ovelhas. Teria a Rainha do Céu desejado demonstrar sua satisfação? Em todo caso, como já acontecera em 13 de setembro de 1917 e 13 de maio de 1918, a multidão testemunhou o espetáculo atmosférico de uma chuva de flores, flocos ou pétalas misteriosas – dificilmente descritíveis – que graciosamente caíram do Céu e desapareceram de vista ao atingirem o solo. O próprio Bispo da Silva atestou esse fato. 35
“AS SERVITAS DE NOSSA SENHORA.” Outro evento importante neste mesmo ano: como os doentes estavam se tornando cada vez mais numerosos, em 14 de junho de 1924,  foi fundada “a Associação das Servitas de Nossa Senhora do Rosário de Fátima” 36 .
A CONSTRUÇÃO. 
No dia 13 de outubro, foi lançada a pedra fundamental do hospício para os doentes. Convém dizer desde já que, a partir dessa data, as obras na Cova da Iria foram ininterruptas, prolongando-se por décadas e empregando mais de uma centena de trabalhadores. E as ofertas espontâneas dos fiéis, deixadas nos troncos das árvores, bastaram sempre para as financiar, sem que fosse necessário organizar recolhas. Este facto é, no mínimo, singular! 37  Esta maravilhosa generosidade do povo português, que se manteve constante desde 13 de agosto de 1917, expressa inequivocamente a fé, o fervor e a gratidão filial da “nação fiel” para com a sua Padroeira Celestial.
Como o Cardeal Cerejeira tão bem escreveu sobre este primeiro período da peregrinação:
«Apesar das reservas da Igreja e da oposição obstinada e ridícula dos poderosos, Fátima continuou a comover a consciência religiosa do país. Sem a Igreja e contra o poder do Estado, a luz do milagre brilhou cada vez mais intensamente no céu de Portugal, e o fogo do entusiasmo das multidões espalhou-se por todo o país.» 38
As palavras do Cardeal eram tão verdadeiras que este profundo movimento de conversão finalmente tornou possível a recuperação política e social da nação, que tantas vezes fora tentada, mas até então sempre em vão. Desta vez, a empreitada seria bem-sucedida. Não, a “maldição portuguesa” não duraria para sempre. Não era uma necessidade inevitável, e finalmente se podia ver a luz no fim do túnel. Por que essa mudança repentina e inesperada? Porque desde 1917, a poderosa Virgem havia prometido ajudar o seu povo, «se os seus pedidos fossem atendidos». Ela cumpriu a sua palavra.
Referências:
(1) Padre Denis, OP, Professor de Teologia no convento de Nossa Senhora do Rosário em Fátima. Citado por G. Renault,  Fátima , p. 218 (Plon, 1957).
(2) Op. cit. p. 220.
(3) De Marchi, p. 230-231.
(4) Cf. nosso Vol. I p. 240-242.
(5) De Marchi, p. 233.
(6) De Marchi, p. 233-234.
(7) De Marchi, p. 235-237. Que data deve ser atribuída a esta construção? Segundo Barthas, 18 de abril de 1919 ( Fatima 1917-1968 , p. 184); segundo Dom Jean-Nesmy “no final de 1919” ( La Vérité de Fatima , p. 152); De Marchi permanece impreciso.
(8) De Marchi, p. 299; cf.  Novos Documentos  by Father Martins, p. XIV-XV.
(9) Cf. o artigo interessante por Msgr. Antunes Borges : “ A primeira imagem de Nossa Senhora de Fatima. De como, quando e por quem foi feita ” ( Fatima 50 , nov. 13, 1968, p. 49) / (cf. Antunes Borges, “ Como surgiu a primeira imagem do Imaculado Coraçâo de Maria”,  Fatima 50 , March 13, 1969, p. 14).
(10) Barthas, Fatima 1917-1958, p. 237.
(11) Este era o Padre António de Oliveira Reis; ele falou com Lúcia várias vezes e desde então foi completamente conquistado pela causa das aparições (cf. supra, p. 187-194). Embora o Cônego Barthas o diga em vários lugares (p. 185, 237), a estátua não foi entronizada na Capelinha na manhã de 13 de maio; veremos porquê. Os testemunhos do Cônego Formigão e de Maria Carreira concordam: naquele dia ela permaneceu na sacristia da igreja paroquial. De fato, a perseguição havia recomeçado e era impossível proceder a esta solene instalação.
(12) Leiam em De Marchi – para apreciar o seu estilo! – alguns destes despachos administrativos trocados então, para « neutralizar esta imundície político-jesuítica » e resistir à « ignóbil superstição reacionária ».
(13) De Marchi, p. 301.
(14)  Os episodios maravilhosos de Fatima , June 1921,  De Marchi, p. 302-306.
(15) II, p. 90-92.
(16) Carta de 5 de junho de 1920, dirigida à federação acima mencionada, De Marchi, p. 307.
(17) Finalmente, desanimado pelos seus repetidos fracassos, Artur de Oliveira Santos abandonou definitivamente o seu cargo de Administrador, no início de 1921. Morreu em Lisboa em 1955.
(18) De Marchi, p. 308-309.
(19) Seu nome está tão intimamente ligado a Fátima, da qual foi bispo por trinta e sete anos, que é indispensável evocar ao menos os contornos gerais de sua biografia: nascido em 15 de janeiro de 1872, na diocese do Porto, fez o ensino secundário em um colégio em Braga dirigido por padres franceses da Ordem do Espírito Santo. Em seguida, cursou teologia no seminário do Porto (1889-1892) e na Universidade de Coimbra (1892-1897). A partir de 1897, lecionou História da Igreja, ciências bíblicas e teologia no seminário do Porto. Grande orador sacro, dedicou-se também a obras sociais católicas. Capelão do Círculo Católico, foi colaborador dos jornais  A Palavra  e  A Liberdade . Durante a Revolução de 1910, foi preso cinco vezes e mantido na prisão por um total de oito meses em um local úmido. Como resultado dessa triste estadia na prisão, sofreu com algumas enfermidades por toda a vida. Finalmente, em 1920, foi designado Bispo de Leiria, diocese restaurada em 17 de janeiro de 1918 pelo breve  Quo Vehementius  de Bento XV. (Cf. Barthas,  Fátima 1917-1968 , p. 256; Alonso, Eph. Mar., 1969, p. 279 e 289.)
(20) Fatima 1917-1968, p. 257-258.
(21) Veja  acima  p. 205.
(22) Ibid., p. 206, esq.
(23) Cf.  Fátima 50 , 13 de fevereiro de 1970, p. 14-24. Este artigo do Padre Pereira de Oliveira reconta a história detalhada da aquisição do atual domínio do santuário. Só a sua esplanada é mais vasta do que a Praça de São Pedro.
(24) Carta Pastoral de 3 de maio de 1922.
(25) Fatima 1917-1968, p. 187.
(26) Cf.  Fátima 50 , 13 de julho de 1970, p. 22.
(27) De Marchi, p. 312.
(28) Fatima 1917-1968, p. 241.
(29) Ibid., p. 242-243.
(30) De Marchi, p. 309.
(31)  La Voz da Fatima  ainda aparece, mas sua circulação diminuiu.
(32)  As grandes maravilhas de Fátima , pp. 128-129.
(33) P. 314. Em 1927, foi descoberto um novo poço. Mas a Cova da Iria estava a transformar-se pouco a pouco numa aglomeração urbana, pelo que os poços já não eram suficientes. Foi necessário construir condutas para transportar água de Vila Nova de Ourém.
(34) Fatima 1917-1968, p. 244-246.
(35) Em 1918, o pároco de Santa Catarina e Monsenhor Sabino Pereira, pároco do Santíssimo Salvador em Santarém, testemunharam este fenômeno extraordinário ( Fátima 1917-1968 , p. 151-152). Para o significado deste sinal, cf. nosso Vol. I, p. 266-267.
(36) Outra associação reservada para mulheres foi aprovada em 1926. Mais tarde, as duas associações fundiram-se sob o título «Pia União dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima», compreendendo quatro secções: sacerdotes capelães, médicos, servitas maqueiros e servitas enfermeiras. O seu primeiro presidente foi o Dr. Carlos Mendes, testemunha desde o início, que já mencionámos. Ver Vol. I, p. 247-251.
(37) Leia sobre este assunto o excelente esclarecimento dado pelas autoridades do santuário: «A basílica, o hospital e os edifícios contíguos à Cova da Iria foram construídos unicamente com as ofertas voluntárias dos peregrinos, sem qualquer recolha nacional ou internacional, e sem qualquer participação do Estado português.» (Citado por Dom Jean-Nesmy, p. 245-246, nota 3.)
(38) Roma, 11 de fevereiro de 1967 (DC, 19 de março de 1967, col. 547).

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